“Muito prazer, Evangelho” – Heber Carlos de Campos Júnior

MuitoPrazerEvangelho
            É comum não darmos crédito a pessoas que dizem torcer para um determinado time de futebol mas que não sabem quando ele vai jogar, quais os principais jogadores ou em que posição está no campeonato. Gente assim parece assumir um time apenas para não ficar de fora da cultura futebolística de nosso país. Semelhantemente, há muitos que se dizem evangélicos, mas que não conhecem a essência da boa nova, nem sabem distinguir falsos evangelhos presentes no âmbito eclesiástico. Gente assim parece desejar fazer parte da cultura evangélica (as razões são diversas) sem, contudo, conhecer o evangelho.
            Essa é uma triste constatação. Porém, de forma geral ela não nos afeta porque já estamos anestesiados pela multiplicidade de pseudo igrejas cristãs em nosso país. Julgo eu que essa tristeza só é internalizada quando percebemos que há considerável desentendimento do que seja evangelho até entre membros de igrejas supostamente bíblicas, que zelam por pregação e ensino, que visam a glória de Deus.[1]
Por que isso acontece? Em parte, porque o evangelho é contraintuitivo.  Ele não brota naturalmente em nosso modo de pensar. Por isso, o evangelho não pode ser uma mensagem para se ouvir apenas uma vez, apenas para se converter a Cristo. Transmitimos essa noção ao falarmos de uma pregação como sendo ‘evangelística’, isto é, voltada para aquele que desconhece a salvação em Cristo. Em outras palavras, a mensagem do evangelho parece ser aquela voltada para o descrente. Porém, se o evangelho é para o descrente, o que pastores pregam todo domingo aos membros da igreja? Deveria ser o evangelho, mas nem sempre o é. Por isso, acredito que cada geração, inúmeras vezes, precisa redescobrir o evangelho, resgatar o cerne das boas novas de Cristo Jesus. “O evangelho é para os cristãos também”, afirma Michael Horton. “Necessitamos ser evangelizados todas as semanas.”[2]
O desentendimento em relação ao evangelho é tão grande que Mark Dever, em seu livro Nove Marcas de uma Igreja Saudável (Editora Fiel, 2007), gasta boa parte do capítulo sobre evangelho explicando o que ele não é. Primeiramente, ele afirma que as boas novas não são apenas que tudo está bem conosco. Num tempo em que pessoas são encorajadas a se aceitarem como elas são, a Bíblia afirma que elas não podem gostar de quem elas são enquanto pecadoras. “Não somente nos sentimos culpados, somos realmente culpados diante dEle. Não temos apenas conflito em nosso íntimo, estamos em conflito com Deus.”[3] As boas novas de Jesus devem despertar o nosso interesse por perdão e transformação constantes, além de esperança de um porvir sem pecado. Em segundo lugar, as boas novas não são apenas que Deus é amor e que Jesus quer ser nosso amigo. A falta de equilíbrio está em transmitir a ideia de que Deus espera que nós iniciemos um relacionamento com ele. Deus não espera por nossa iniciativa, ele já iniciou a busca de nos aproximar dele. Para isso, ele precisa superar as barreiras do pecado por causa de sua própria santidade. Deus quer-nos perto dele, mas o custo é altíssimo, pois envolve a humilhação de seu Filho. Em terceiro lugar, as boas novas não são apenas que nós devemos viver corretamente. Se dissermos que o evangelho ajuda-nos a ser pessoas melhores, vamos comunicar erroneamente que se trata de um aditivo à minha presente busca por algo melhor. O evangelho não é algo a ser acrescido à sua vida. O evangelho requer renúncia – arrependimento e fé –, a disposição de nascer de novo, começar do zero, abandonar toda tentativa prévia de uma vida honrosa, honesta e feliz (João 3.1-21).[4]
O evangelho realmente é contraintuitivo. Os ímpios até enxergam a Queda, mas não a Redenção. Isso pode ser confirmado por exemplos que vão do erudito ao popular. O jornalista britânico Henry Fairlie escreve de forma muito perspicaz sobre os pecados da sociedade atual (The Seven Deadly Sins Today, 1978), sem possuir um referencial cristão para resolver esse problema. O educador baiano Antônio Barreto escreveu literatura de cordel criticando severamente a banalidade do programa Big Brother Brasil, mas propondo mais educação para solucionar os problemas sociais de nosso país. Ambos fazem boa análise dos efeitos da Queda na sociedade, mas não conseguem enxergar a redenção em Cristo Jesus. Eles até possuem modelos de redenção, aspirações de solucionar os problemas do mundo, mas que não inclui Jesus. Iluminação moral e espiritual é aceita sem dificuldades, mas redenção por uma operação somente divina é uma proposta escandalosa. Por isso, o evangelho é notícia, novidade totalmente desconhecida entre os homens.
O evangelho é desconhecido até de muitos crentes, como mostra Michael Horton em seu livro Cristianismo sem Cristo. Focamos mais em “o que faria Jesus?” ao invés de “o que fez Jesus?” Cristo é visto mais como exemplo do que como Salvador. Gostamos de mensagens práticas (vem de ‘práxis’, apontando para o que devemos fazer) onde o sofrimento de Jesus no Getsêmani é relacionado às nossas lutas diárias, como se o sofrimento vicário de Cristo fosse experimentado por nós só que em grau menor. Nós nos acostumamos com pregações moralistas. Crentes esperam o momento da mensagem em que nós lhes diremos o que fazer para melhorar a vida espiritual, a vida familiar, ou como causar impacto na sociedade. Pastores e teólogos estudam arduamente como tornar a igreja relevante para o mundo real. Queremos participar da Missio Deiremindo a cultura, transformando o mundo. Mensagens para jovens falam mais do nosso compromisso com Deus do que do compromisso dele conosco. Cantamos mais músicas que falam de nossa entrega a Deus do que do sacrifício de Cristo. Quantas vezes no departamento infantil da Escola Bíblia Dominical, somos treinados a terminar a aula ensinando os alunos a fazer algo (obras), antes do que crer em algo (fé). Na educação de filhos, também somos prontos em dar ordens (obedecer os pais, respeitar os mais velhos, ser educado na casa dos outros), mas nem sempre ensinamos nossos filhos a responder bem quando erram. Nossos pequeninos precisam aprender o evangelho. Precisamos aprender com o nosso Pai celestial que filhos são encorajados com promessas, com perdão, não com ‘linha dura’.
Horton resume toda essa tendência moderna assim: “grande parte de nosso ministério, hoje, é lei sem evangelho, exortação sem notícias, instruções sem anúncio, obras sem credos, com a ênfase em ‘o que teria feito Jesus?’ em lugar de ‘o que fez Jesus?’.”[5]Horton não está dizendo que não podemos ensinar a lei, os mandamentos de Deus.  A lei faz parte da revelação divina. Porém, ele está destacando a necessidade desesperadora de ouvirmos o evangelho para cumprirmos a lei.[6] Ele diz que precisamos “de um evangelho que seja suficiente para salvar até mesmo os cristãos infiéis. Não podemos deixar de valorizar o evangelho. Ele é sempre um anúncio surpreendente que infla nossas velas com fé para uma vida ativa de boas obras.”[7] O evangelho é essencialmente uma notícia, uma história que precisamos ouvir de novo, e de novo. Não é à toa que devemos celebrar a Ceia do Senhor regularmente. A Ceia traz o evangelho aos nossos sentidos, ela nos permite provar e ver que o Senhor é bom.
O evangelho é a preciosa joia (Ef 3.8) com múltiplas facetas, mas com um único esplendor. Suas várias facetas podem ser vistas na diversidade de analogias para descrever as dádivas divinas. O apóstolo Paulo usa linguagem jurídica (justificação), comercial (redenção), religiosa (propiciação), relacional (reconciliação) e militar (triunfo) para tentar explicar a paz (Ef 6.15), a vida (2 Tm 1.10), a esperança (Cl 1.23) o poder (Rm 1.16; 1 Ts 1.5) e a glória (2 Ts 2.14; 1 Tm 1.11) que obtivemos no evangelho de Jesus Cristo, morto e ressurreto. Todavia, todas essas dádivas visam um único fim. John Piper destaca bem a principal dádiva do evangelho: “Propiciação, redenção, perdão, imputação, santificação, libertação, cura, céu – nenhuma destas coisas é boa-nova exceto por uma única razão: elas nos trazem a Deus, para nosso eterno desfrute dEle.”[8]Deus é o grande presente. O prazer maior dos fiéis sempre foi o de contemplar a Deus. Moisés (Ex 33.18), Davi (Sl 27.4, 8; Sl 63.1-2), Jeremias (Lm 3.24), Paulo (Fp 3.8) almejaram isso mais do que tudo. Esse é o alvo final de todo remido (Ap 21.3, 22-23; 22.3-5). Ouvir o evangelho é ter júbilo constante por enxergar “a glória de Deus na face de Cristo” (2 Co 4.6).
Portanto, comecemos do zero. Volte-se às Escrituras e ouça a redescoberta: “Muito prazer, Evangelho”.
Por: Heber Carlos de Campos Júnior 
 


[1]Greg Gilbert cita algumas definições de “evangelho” que divergem muito entre si, de autores que vão desde o mais evangelical, passando pela preocupação com revolução social, até uma mensagem moralista típica de liberais. GILBERT, Greg. O que é o Evangelho? (São José dos Campos: Fiel, 2010), p. 25-28.
[2]HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo: O evangelho alternativo da igreja atual (São Paulo: Cultura Cristã, 2010), p. 103.
[3]DEVER, Mark. Nove Marcas de uma Igreja Saudável (São José dos Campos: Fiel, 2007), p. 87.
[4]Greg Gilbert sugere outros três conceitos bíblicos que não podem ser confundidos com o evangelho: (1) a afirmação de que Jesus é Senhor, pois ao assumir o posto de Senhor que há de nos julgar a notícia não é boa se ele também não for Salvador; (2) os quatro pilares da história da redenção (criação-queda-redenção-consumação), pois o esboço amplo que não especifica o ‘como’ da redenção deixa pecadores ainda perdidos; (3) a transformação cultural como grande missão da igreja, pois a expectativa de mudança do mundo é moralista e se assemelha à esperança de ímpios. O ponto de Gilbert é que esses três conceitos são verdadeiros, mas não são a essência do evangelho, que é a cruz. Sem a cruz não há boa-nova. GILBERT, O que é o Evangelho?, p. 137-150.
[5]HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 89.
[6] “Não somos chamados para viver o evangelho, mas para crer no evangelho e para seguir a lei mediante a misericórdia de Deus.” HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 103. Entretanto, entender o lugar da lei e do evangelho em nossa pregação é sempre um desafio, um equilíbrio que requer atenção redobrada. Ernest Kevan verbaliza esse problema assim: “Há uma perfeita harmonia entre a graça salvadora de Deus e as boas obras do crente, mas a exposição desta harmonia constitui um dos problemas da teologia cristã. Não é fácil insistir na graça de Deus sem dar algum tipo de fundamento à acusação de que a doutrina é licensiosa ou antinomiana; também não é fácil afirmar a necessidade das boas obras sem provocar o clamor de que a graça de Deus está sendo destruída.” KEVAN, Ernest. A Lei Moral (São Paulo: Os Puritanos, 2000), p. 28.
[7]HORTON, Cristianismo sem Cristo, p. 100.
[8]PIPER, John. Deus é o Evangelho (São José dos Campos: Fiel, 2006), p. 50.
 

Do Original: Publicado anteriormente na revista “Fé para Hoje” da Editora Fiel: http://editorafiel.com.br/
Por: Heber Carlos de Campos Júnior
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